Há um ano e quatro meses em Angola, o embaixador do Japão, Kazuhiko Koshikawa, fala da cooperação entre os dois países, e diz que veio com a missão de criar as condições que permitam o investimento directo japonês no nosso país.
Fala também do processo de transição política em Angola e diz que em oito anos de paz o país demonstrou um avanço substancial na promoção da democracia.
O embaixador traça um paralelismo da situação de Angola com a do Japão no final da Segunda Guerra Mundial e realça a importância da Educação na mudança do estado de coisas: “Tóquio estava completamente queimada. Sem recursos naturais, o governo começou a construir escolas e hoje temos recursos humanos. A Educação é o mais importante para o futuro, por isso estamos a ajudar na construção de escolas em Angola, em parceria com o UNICEF”.
Jornal de Angola – Qual é o estado das relações político-diplomáticas entre Angola e o Japão?
Kazuhiko Koshikawa – As relações políticas e diplomáticas entre Angola e o Japão são muito boas. Não temos nenhuma dificuldade nesse aspecto. Com base nessa relação, gostaria de promover mais as relações económicas e comerciais e o intercâmbio cultural. Porque através do intercâmbio cultural e do investimento directo podemos tornar a relação bilateral mais rica.
JA – Os empresários japoneses mostram interesse em Angola?
KK – Os empresários japoneses têm grande interesse no mercado angolano. Quando deixei o Japão para vir assumir o cargo de embaixador muitos líderes do sector privado japonês pediram que criasse condições favoráveis ao investimento directo do Japão. O meu trabalho é realizar esse desejo. Estamos neste momento a negociar com o governo angolano um acordo bilateral de protecção e promoção de investimentos directos entre os dois países.
JA – Quando é que esse acordo está concluído?
KK – Acredito que este acordo ficará concluído com êxito nas últimas semanas de Março ou no início de Abril. Uma delegação oficial vem de Tóquio para concluir as negociações deste acordo de investimento. Também planeamos convidar um grupo de empresários das maiores companhias japonesas e aproveitar a sua presença para anunciarmos a conclusão das negociações. Gostaríamos de ter essa missão antes do Verão, mas é claro que isso depende dos dois países. Gostaríamos de concluir o acordo o mais cedo possível.
JA – Existem acordos do género com outros países africanos?
KK - Este é o primeiro acordo bilateral de investimento que o Japão vai celebrar com um país da África subsahariana. Angola pode ser o primeiro país a ter este acordo com o Japão. Seria uma grande mensagem política para os líderes do sector privado japonês.
JA – Quais são os sectores económicos que suscitam maior interesse para eles?
KK – Todas as empresas estrangeiras têm muito interesse no sector da energia e minas de Angola, porque este país tem um grande potencial de produção de petróleo. O Japão apresenta vantagens na manufactura de veículos e produtos electrónicos. O governo angolano definiu entre as suas prioridades a diversificação da economia. Através do investimento directo nesta área as empresas japonesas podem dar uma grande contribuição na diversificação da economia angolana. Disso pode resultar uma parceria mutuamente vantajosa. Veja o exemplo de países asiáticos como a China, Malásia, Indonésia, Singapura, Tailândia, Coreia do Sul e Taiwan. Desde 1985 que o sector privado japonês faz grandes investimentos directos neste sector. Através desse investimento houve transferência de tecnologia e da gestão de fábricas e aumentou o emprego. Gostaríamos de realizar este tipo de cooperação com Angola. Os países europeus, americanos e outros só têm um investimento no mar: o petróleo.
JA – Que projectos o Japão está a implementar em Angola no quadro da cooperação económica e técnica?
KK – Estamos a construir 20 escolas primárias, dez em Luanda e igual número em Benguela. Algumas já estão em fase de conclusão. Com 20 escolas teremos 120 salas de aulas. A Educação é primordial na nossa cooperação. Tivemos a mesma experiência no Japão. Há 65 anos, tinha sido derrotado no final da Segunda Guerra Mundial. Com os bombardeamentos, Tóquio estava completamente queimada. Não tínhamos praticamente nada na capital. Sem recursos naturais, o governo começou a construir escolas e hoje temos recursos humanos. A Educação é o mais importante para o futuro. Por isso estamos a ajudar a construir escolas em Angola, em parceria com a UNICEF.
JA – Que projectos existem na área da saúde?
KK – Reabilitámos e equipámos o Hospital Josina Machel. Agora estamos concentrados na formação de recursos humanos necessários para o hospital. Já realizámos quatro cursos. Em três anos formámos 500 enfermeiros, ministrámos um curso de radiologia, outro de Laboratório e um de gestão hospitalar. O Japão tem muitos especialistas nessas áreas, mas poucos falam português, por isso essa cooperação é desenvolvida de forma triangular, envolvendo o Japão, o Brasil e Angola. A Agência Japonesa de Cooperação Internacional financia os cursos convidando brasileiros de origem japonesa, com o apoio da Agência Brasileira de Cooperação e os professores ensinam os angolanos. Já fizemos também a distribuição de milhões de mosquiteiros através do Ministério da Saúde e do UNICEF.
JA – O que é que o público angolano pode esperar das duas actuações de músicos japoneses, amanhã, no Cine Nacional, e domingo, no Belas Shopping?
KK – Tenho muito prazer em apresentar os primeiros músicos japoneses a actuar em Angola. Os nossos países estão geograficamente distantes, por isso nunca tivemos este tipo de intercâmbio cultural. Vamos aproveitar esta ocasião para apresentar um tipo de música tradicional japonesa. Não são necessárias palavras para se sentir a música. Espero que as pessoas que forem assistir às apresentações sintam e gostem da música japonesa. Queremos continuar com este tipo de intercâmbio nos próximos anos.
JA – Que avaliação faz do processo de transição política em Angola que culminou com a aprovação da nova Constituição?
KK – Estou há um ano e quatro meses em Angola e tenho observado um avanço muito estável na promoção da democracia. Normalmente são necessários muito mais anos de paz para organizar a estrutura de um país de maneira democrática, mas Angola, em quase oito anos de paz, demonstrou um avanço substancial. Há poucas semanas foi aprovada uma nova Constituição por uma Assembleia democraticamente eleita. É uma conquista histórica para os angolanos. Quero expressar, em nome do governo e do povo japonês, as nossas felicitações por este acontecimento histórico para os angolanos. Acredito que, com esta nova Constituição, a democracia em Angola vai avançar nos próximos anos e contribuirá para o desenvolvimento económico e social.